levantou-se ensonada e dirigiu-se à cozinha para pôr o café a aquecer. encostou-se ao fogão com um meio sorriso e deixou invadir-se por uma sensação de conforto, usualmente reprimido.
os filhos não tardaram a sentar-se à mesa. tudo o que a rodeava inspirava uma segurança obtida à custa de afazeres e rotinas obrigatórias e pré-definidas. a casa, paga todos os meses ao banco, revelava a sua paciência e o seu gosto. olhou em volta e sentiu o orgulho de um agricultor. tudo o que semeara dera fruto, os filhos, o marido, as cortinas, a cafeteira do café. as suas mãos plantavam e colhiam uma vida segura e estável que sempre desejara. sentia-se mais forte do que nunca, o seu corpo que dia a dia se tornava mais volumoso exprimia a ternura que punha em cada tarefa e a consciência do poder humano em construir a sua própria harmonia. criara uma vida de adulta. esquecera as aspirações juvenis, os desejos artificiais e os sonhos inalcançáveis. vivia para os outros com persistência, com alegria mas sem felicidade.
havia todavia um momento que era só seu. despachados os filhos para a escola e o marido para o trabalho, dirigia-se para a rua para fazer as compras diárias, deixando os pensamentos fluir através das mãos tingidas de vermelho da mulher que lhe vendia um quilo de morangos. repousava no seu interior com medo de descobrir um ponto menos claro, menos compreensível e mais ambicioso. mas logo a visão da farmácia trazia a lembrança do xarope do filho e a realidade arrependida tomava conta de tudo. o mundo era compreensível e certo. bastava não olhar muito em redor. bastava baixar os olhos e seguir o caminho traçado.
tinha consciência de que só o mar a compreendia. em momentos raros de lucidez recorria a ele, com toda a força e toda a garra de ser mulher. esperava pelo silêncio e pela solidão e confrontava a água com o seu mistério. só ela e o mar. à medida que entrava, sentia o conforto do frio e a liberdade da sua insignificância, acabavam-se as dependências e as obrigações e o corpo sobrepunha-se a todas as necessidades. realizava-se naqueles raros momentos. entrava com lentidão, sentia a água nos pés pequenos e moles, via os pêlos das coxas duras levantarem-se e encolhia a barriga pesada enquanto a água a cobria. mantinha-se sempre séria e encarava o ritual como essencial para a sua purificação. adequava-se à água gelada e deixava-se cobrir pela imensidão do mar. mergulhava, sentia-se leve e tentava saciar todos os sentidos. o cheiro a maresia inebriava-a e os goles de água salgada rejuvenesciam-na. tudo o que via e não via a pacificava. o marulho das ondas dotava-a de coragem e de sensações múltiplas que só serenavam com a invasão de todo o seu corpo. a água penetrava-a como um homem e depois de sucessivos mergulhos e de sucessivos goles esfomeados, a serenidade começava a voltar. pé ante pé, abandonava lentamente o seu amante. ainda sustinha o passo e permanecia parada alguns segundos, hesitava em prosseguir, mas o chamamento das raízes era mais forte. com os olhos avermelhados, os cabelos escuros, duros e espessos e a pele salgada, a mulher regressava à praia, pisava a areia e começava a vestir-se. nunca olhava para trás, nunca reflectia naquelas sensações experimentadas e nunca sorria. uma calma serenidade e uma firme determinação obrigavam-na a seguir o seu caminho. sabia que em casa os filhos a aguardavam para lanchar, que o marido precisava do seu carinho e que a mobília estava com pó. sabia que a vida prosseguia e aceitava-a com serena compreensão. nunca olhava para trás, nunca se despedia e nunca sorria. sabia que voltaria sempre e sabia que um dia voltaria para sempre.
os filhos não tardaram a sentar-se à mesa. tudo o que a rodeava inspirava uma segurança obtida à custa de afazeres e rotinas obrigatórias e pré-definidas. a casa, paga todos os meses ao banco, revelava a sua paciência e o seu gosto. olhou em volta e sentiu o orgulho de um agricultor. tudo o que semeara dera fruto, os filhos, o marido, as cortinas, a cafeteira do café. as suas mãos plantavam e colhiam uma vida segura e estável que sempre desejara. sentia-se mais forte do que nunca, o seu corpo que dia a dia se tornava mais volumoso exprimia a ternura que punha em cada tarefa e a consciência do poder humano em construir a sua própria harmonia. criara uma vida de adulta. esquecera as aspirações juvenis, os desejos artificiais e os sonhos inalcançáveis. vivia para os outros com persistência, com alegria mas sem felicidade.
havia todavia um momento que era só seu. despachados os filhos para a escola e o marido para o trabalho, dirigia-se para a rua para fazer as compras diárias, deixando os pensamentos fluir através das mãos tingidas de vermelho da mulher que lhe vendia um quilo de morangos. repousava no seu interior com medo de descobrir um ponto menos claro, menos compreensível e mais ambicioso. mas logo a visão da farmácia trazia a lembrança do xarope do filho e a realidade arrependida tomava conta de tudo. o mundo era compreensível e certo. bastava não olhar muito em redor. bastava baixar os olhos e seguir o caminho traçado.
tinha consciência de que só o mar a compreendia. em momentos raros de lucidez recorria a ele, com toda a força e toda a garra de ser mulher. esperava pelo silêncio e pela solidão e confrontava a água com o seu mistério. só ela e o mar. à medida que entrava, sentia o conforto do frio e a liberdade da sua insignificância, acabavam-se as dependências e as obrigações e o corpo sobrepunha-se a todas as necessidades. realizava-se naqueles raros momentos. entrava com lentidão, sentia a água nos pés pequenos e moles, via os pêlos das coxas duras levantarem-se e encolhia a barriga pesada enquanto a água a cobria. mantinha-se sempre séria e encarava o ritual como essencial para a sua purificação. adequava-se à água gelada e deixava-se cobrir pela imensidão do mar. mergulhava, sentia-se leve e tentava saciar todos os sentidos. o cheiro a maresia inebriava-a e os goles de água salgada rejuvenesciam-na. tudo o que via e não via a pacificava. o marulho das ondas dotava-a de coragem e de sensações múltiplas que só serenavam com a invasão de todo o seu corpo. a água penetrava-a como um homem e depois de sucessivos mergulhos e de sucessivos goles esfomeados, a serenidade começava a voltar. pé ante pé, abandonava lentamente o seu amante. ainda sustinha o passo e permanecia parada alguns segundos, hesitava em prosseguir, mas o chamamento das raízes era mais forte. com os olhos avermelhados, os cabelos escuros, duros e espessos e a pele salgada, a mulher regressava à praia, pisava a areia e começava a vestir-se. nunca olhava para trás, nunca reflectia naquelas sensações experimentadas e nunca sorria. uma calma serenidade e uma firme determinação obrigavam-na a seguir o seu caminho. sabia que em casa os filhos a aguardavam para lanchar, que o marido precisava do seu carinho e que a mobília estava com pó. sabia que a vida prosseguia e aceitava-a com serena compreensão. nunca olhava para trás, nunca se despedia e nunca sorria. sabia que voltaria sempre e sabia que um dia voltaria para sempre.

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