sexta-feira, 4 de julho de 2008

autobiografia

não sei quem sou nem quero saber. olho ao espelho e não sei o que vejo. vejo-me. não me olho e não quero olhar. só me vejo. beijo-me e vejo-me. e sinto-me. sinto as mãos, as unhas, a pele, os pés, as pernas, os ossos, os maxilares, o cabelo. sinto-me. e para mim chega.
tento perceber as minhas qualidades, as minhas características, as minhas imprecisões, pergunto aos outros o que pensam de mim. só disparates. és irritadiça, convencida, fedorenta. só disparates. e continuo a minha pesquisa. penso em pegar em obras autobiográficas, ver páginas na internet, ler livros de auto-conhecimento, adulterar resultados. e não consigo.
primeira característica: covarde.
recordo o meu percurso e adoro tudo: os tempos de boa aluna e os tempos de má aluna, as mentiras infligidas aos pais, as saídas permanentes, o grupo de amigos de sempre, as férias loucas, as viagens, os livros, os milhares de namorados, as bebedeiras, as lágrimas vertidas sem razão e as lágrimas vertidas com toda a razão, os risos, as gargalhadas, as discotecas, as danças, os rituais de acasalamento das tribos africanas, a música, os desejos, as paixões, os sonhos, as zangas, as discussões, o amor incondicional e total pela família. e continuo sem me conseguir compreender.
olho agora em volta e tudo me parece diferente, e igual, como se uma etapa tivesse terminado e novos momentos estivessem à espera de ser vividos. porém, tudo persiste. as rotinas mantêm-se. os dias são iguais. as refeições são à mesma hora. só os desejos são diferentes. mas também estes têm de ser realizados seja de que modo for e o mais rapidamente possível. já, tudo já. e de preferência perfeito. e de preferência fácil. e de preferência igual ao imaginado.
segunda característica: insuportável.
continuo a minha viagem pelo meu interior e acho tudo belo. os meus pulmões são elegantes e cheios de ar, o meu coração bate normalmente, o meu fígado está no sítio certo, o meu estômago é uma bolsa engraçada e os meus intestinos não são minhocas entrelaçadas como os outros, pelo contrário, o meu intestino delgado é o órgão onde ocorre a absorção digestiva. fantástico.
terceira característica: narcisista.
olho para as pessoas que me rodeiam. amo-as com toda a força e com toda a emoção porque me adoram, porque se preocupam comigo, porque querem o melhor para mim, porque me acompanham em todos os momentos, porque me ajudam sempre, porque riem e choram comigo e, acima de tudo, porque são como são.
quarta característica: egocêntrica.
penso nos meus medos e não receio nada. a não ser a solidão, a não ser a infertilidade, a não ser a falta de amor, a não ser a traição, a não ser o comodismo, a não ser a morte.
quinta característica: medrosa.
analiso a minha realidade e apercebo-me que já construí muito. mas tudo me falta. a insatisfação é contínua. e por isso procuro e busco incessantemente algo que nunca encontro e nunca encontrarei. procuro pelo prazer de procurar e isso é suficiente.
sexta característica: maníaca.
covarde. insuportável. narcisista. egocêntrica. medricas. maníaca. tudo junto. leio e releio este texto e penso que não me consigo definir, que não sei quem sou e não quero saber. penso que só quero ser. penso que quero continuar a olhar ao espelho sem saber o que vejo, sem me olhar verdadeiramente. e penso que quero continuar a escrever para continuar a não me compreender.

1 comentário:

Bruno Faria disse...

Após ter conseguido uma importante dica para encontrar este simpatico blogue, eis que lendo e relendo textos pertencentes a esta página (mais uma?) de internet, me deparo com um texto que, pela sua construção me agradou muito. Fluido, bem construido, sincero, trabalhado e bastante sentido. Esta ultima referencia (bastante sentido) é que importa comentar: isto apenas para referir que a língua portuguesa é para ser sentida, escrita por querer escrever bem, demonstrar todos os sentimentos que temos na alma, descrever emocoes que nos façam compreender o proximo ser compreendido pelo proximo, pois a vida apenas podera valer a pena se nos formos lembrados por aqueles que mais gostamos...

Um blogue que é a tua cara...

Gostei imenso

Bruno Faria