terça-feira, 29 de julho de 2008

casa

eu amei a casa os recantos da casa
os corredores os compartimentos os refúgios
os cheiros a comida as cores da fruta
quem seria eu sem sentir o apelo de
todas as mãos? que seria de mim sem
o toque dos risos de todas as paredes?

a casa nua surda estável por fora
instável desconexa cheia de sótãos
por dentro. a casa como eu: com
janelas portas e terraços para a vida

eu amei a casa a intimidade da casa
a intensidade agressiva e fechada sobre si
o cenário de todos os mundos individuais
quem seríamos nós sem percorrermos
todas as ruas? que seria de nós sem
um desejo inexplicável de regressar?

a casa assustadora sombria angustiante
a casa com quartos salas e sonhos
a casa onde choramos rimos e amamos
a nossa casa de histórias segredos e mistérios
em casa respirei e atravessei os tempos
em casa senti as raízes e o apelo do passado

eu amei a casa todos os desejos da casa
e fundi-me nela com todas as minhas
angústias pesadelos e ambições. e agora
não consigo largá-la. que será de mim
longe daqui? onde conseguirei ouvir
os sorrisos frágeis da minha infância?
onde reencontrarei os braços abertos de
minha mãe e a sensatez de meu pai?

eu amei a casa toda a vida da casa
mas ela não passa por toda a minha vida
ela surgirá a olhar para mim pela janela
ela morrerá um bocadinho com o meu abandono
mas manterá a estabilidade serena para
aguardar sempre o meu eterno regresso.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

depois da minha passagem a casa
que abandonei recordará ainda
a melancolia das minhas palavras

segunda-feira, 7 de julho de 2008

útero

o silêncio intenso permite ouvir o bater
de todas as pálpebras enquanto que a
dor reduz todas as divisões. a natureza

obriga. e sinto-me a percorrer um trilho
já conhecido. a cabeça segue à frente
a rasgar corredores sinuosos. mas o corpo

não quer ir e as mãos agarram-se às
esquinas dos armários e aos órgãos das
mães que inspiram protecção. o regresso

nunca será possível. aquele que abandona
nunca consegue regressar. só lhe resta enfrentar
o peso do tempo e o sorriso da melancolia.

por isso os olhos piscam triunfalmente com
a força da luz e os pulmões abrem-se
para respirar com o toque das novas mãos.
a janela olha para o sol e o branco das
paredes continua a cegar. a dor da partida

amanhece com a certeza de cada retorno
e a luz líquida de todos os olhares
reflecte a meiga intimidade de cada útero

o primeiro momento em que senti o poder da
casa.

o marulho do ar

levantou-se ensonada e dirigiu-se à cozinha para pôr o café a aquecer. encostou-se ao fogão com um meio sorriso e deixou invadir-se por uma sensação de conforto, usualmente reprimido.
os filhos não tardaram a sentar-se à mesa. tudo o que a rodeava inspirava uma segurança obtida à custa de afazeres e rotinas obrigatórias e pré-definidas. a casa, paga todos os meses ao banco, revelava a sua paciência e o seu gosto. olhou em volta e sentiu o orgulho de um agricultor. tudo o que semeara dera fruto, os filhos, o marido, as cortinas, a cafeteira do café. as suas mãos plantavam e colhiam uma vida segura e estável que sempre desejara. sentia-se mais forte do que nunca, o seu corpo que dia a dia se tornava mais volumoso exprimia a ternura que punha em cada tarefa e a consciência do poder humano em construir a sua própria harmonia. criara uma vida de adulta. esquecera as aspirações juvenis, os desejos artificiais e os sonhos inalcançáveis. vivia para os outros com persistência, com alegria mas sem felicidade.
havia todavia um momento que era só seu. despachados os filhos para a escola e o marido para o trabalho, dirigia-se para a rua para fazer as compras diárias, deixando os pensamentos fluir através das mãos tingidas de vermelho da mulher que lhe vendia um quilo de morangos. repousava no seu interior com medo de descobrir um ponto menos claro, menos compreensível e mais ambicioso. mas logo a visão da farmácia trazia a lembrança do xarope do filho e a realidade arrependida tomava conta de tudo. o mundo era compreensível e certo. bastava não olhar muito em redor. bastava baixar os olhos e seguir o caminho traçado.
tinha consciência de que só o mar a compreendia. em momentos raros de lucidez recorria a ele, com toda a força e toda a garra de ser mulher. esperava pelo silêncio e pela solidão e confrontava a água com o seu mistério. só ela e o mar. à medida que entrava, sentia o conforto do frio e a liberdade da sua insignificância, acabavam-se as dependências e as obrigações e o corpo sobrepunha-se a todas as necessidades. realizava-se naqueles raros momentos. entrava com lentidão, sentia a água nos pés pequenos e moles, via os pêlos das coxas duras levantarem-se e encolhia a barriga pesada enquanto a água a cobria. mantinha-se sempre séria e encarava o ritual como essencial para a sua purificação. adequava-se à água gelada e deixava-se cobrir pela imensidão do mar. mergulhava, sentia-se leve e tentava saciar todos os sentidos. o cheiro a maresia inebriava-a e os goles de água salgada rejuvenesciam-na. tudo o que via e não via a pacificava. o marulho das ondas dotava-a de coragem e de sensações múltiplas que só serenavam com a invasão de todo o seu corpo. a água penetrava-a como um homem e depois de sucessivos mergulhos e de sucessivos goles esfomeados, a serenidade começava a voltar. pé ante pé, abandonava lentamente o seu amante. ainda sustinha o passo e permanecia parada alguns segundos, hesitava em prosseguir, mas o chamamento das raízes era mais forte. com os olhos avermelhados, os cabelos escuros, duros e espessos e a pele salgada, a mulher regressava à praia, pisava a areia e começava a vestir-se. nunca olhava para trás, nunca reflectia naquelas sensações experimentadas e nunca sorria. uma calma serenidade e uma firme determinação obrigavam-na a seguir o seu caminho. sabia que em casa os filhos a aguardavam para lanchar, que o marido precisava do seu carinho e que a mobília estava com pó. sabia que a vida prosseguia e aceitava-a com serena compreensão. nunca olhava para trás, nunca se despedia e nunca sorria. sabia que voltaria sempre e sabia que um dia voltaria para sempre.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

autobiografia

não sei quem sou nem quero saber. olho ao espelho e não sei o que vejo. vejo-me. não me olho e não quero olhar. só me vejo. beijo-me e vejo-me. e sinto-me. sinto as mãos, as unhas, a pele, os pés, as pernas, os ossos, os maxilares, o cabelo. sinto-me. e para mim chega.
tento perceber as minhas qualidades, as minhas características, as minhas imprecisões, pergunto aos outros o que pensam de mim. só disparates. és irritadiça, convencida, fedorenta. só disparates. e continuo a minha pesquisa. penso em pegar em obras autobiográficas, ver páginas na internet, ler livros de auto-conhecimento, adulterar resultados. e não consigo.
primeira característica: covarde.
recordo o meu percurso e adoro tudo: os tempos de boa aluna e os tempos de má aluna, as mentiras infligidas aos pais, as saídas permanentes, o grupo de amigos de sempre, as férias loucas, as viagens, os livros, os milhares de namorados, as bebedeiras, as lágrimas vertidas sem razão e as lágrimas vertidas com toda a razão, os risos, as gargalhadas, as discotecas, as danças, os rituais de acasalamento das tribos africanas, a música, os desejos, as paixões, os sonhos, as zangas, as discussões, o amor incondicional e total pela família. e continuo sem me conseguir compreender.
olho agora em volta e tudo me parece diferente, e igual, como se uma etapa tivesse terminado e novos momentos estivessem à espera de ser vividos. porém, tudo persiste. as rotinas mantêm-se. os dias são iguais. as refeições são à mesma hora. só os desejos são diferentes. mas também estes têm de ser realizados seja de que modo for e o mais rapidamente possível. já, tudo já. e de preferência perfeito. e de preferência fácil. e de preferência igual ao imaginado.
segunda característica: insuportável.
continuo a minha viagem pelo meu interior e acho tudo belo. os meus pulmões são elegantes e cheios de ar, o meu coração bate normalmente, o meu fígado está no sítio certo, o meu estômago é uma bolsa engraçada e os meus intestinos não são minhocas entrelaçadas como os outros, pelo contrário, o meu intestino delgado é o órgão onde ocorre a absorção digestiva. fantástico.
terceira característica: narcisista.
olho para as pessoas que me rodeiam. amo-as com toda a força e com toda a emoção porque me adoram, porque se preocupam comigo, porque querem o melhor para mim, porque me acompanham em todos os momentos, porque me ajudam sempre, porque riem e choram comigo e, acima de tudo, porque são como são.
quarta característica: egocêntrica.
penso nos meus medos e não receio nada. a não ser a solidão, a não ser a infertilidade, a não ser a falta de amor, a não ser a traição, a não ser o comodismo, a não ser a morte.
quinta característica: medrosa.
analiso a minha realidade e apercebo-me que já construí muito. mas tudo me falta. a insatisfação é contínua. e por isso procuro e busco incessantemente algo que nunca encontro e nunca encontrarei. procuro pelo prazer de procurar e isso é suficiente.
sexta característica: maníaca.
covarde. insuportável. narcisista. egocêntrica. medricas. maníaca. tudo junto. leio e releio este texto e penso que não me consigo definir, que não sei quem sou e não quero saber. penso que só quero ser. penso que quero continuar a olhar ao espelho sem saber o que vejo, sem me olhar verdadeiramente. e penso que quero continuar a escrever para continuar a não me compreender.