segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A verdadeira artista

tela para o quarto do irmão, em tons de azul e dourado. e a verdadeira artista põe mãos à obra, ou melhor, mãos na obra e tinta na casa inteira.
1º passo: procurar inspiração: ouro e corações de Viana, já que o quarto é em Viana.
2º passo: escolher cores: azul e dourado para combinar com a cabeceira da cama.
3º passo: trabalhar, trabalhar, trabalhar. pintar, pintar, pintar.
4º passo: descobrir que a artista é uma barroca, já que procura a perfeição do ouro sobre azul.
5º passo: constatar que o irmão não queria quadro nenhum, queria capa antiga de livro de banda desenhada.
6º passo: colocar a tela à força.
7º passo: irmão convencido.
8º passo: orgulho, orgulho, orgulho.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

livros de verão

descobri que, no verão, livros que tenham menos de quinhentas páginas não me dizem nada. não aliciam. o interessante é pegar num livro com duas toneladas de peso e arrastá-lo para todo o lado. não há nada como carregar no saco de praia um calhamaço que põe o ombro negro. por isso este ano (até ao momento) os escolhidos são Os homens que odeiam as mulheres de Stieg Larsson e A sombra do vento de Carlos Ruiz Zafón. o primeiro é tão absorvente que fez com que duas tardes de praia com um vendaval à minha volta e o corpo encroquetado fossem um pormenor insignificante. o segundo ainda está no início, mas promete.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

férias, ou quase.

chuva molha tolos, ou seja, chuva que não me molha a mim. viana do castelo com chuva, logo, não há praia, logo vou arrastar o meu charme pela cidade e comer milhões de bolas de berlim no natário. vou também comprar um livro e pensar pela centésima vez se compro as sandálias que vi. porque será que adio decisões?

resolução do dia:escrever mais neste blogue. sou uma blogger fajuta.

terça-feira, 29 de julho de 2008

casa

eu amei a casa os recantos da casa
os corredores os compartimentos os refúgios
os cheiros a comida as cores da fruta
quem seria eu sem sentir o apelo de
todas as mãos? que seria de mim sem
o toque dos risos de todas as paredes?

a casa nua surda estável por fora
instável desconexa cheia de sótãos
por dentro. a casa como eu: com
janelas portas e terraços para a vida

eu amei a casa a intimidade da casa
a intensidade agressiva e fechada sobre si
o cenário de todos os mundos individuais
quem seríamos nós sem percorrermos
todas as ruas? que seria de nós sem
um desejo inexplicável de regressar?

a casa assustadora sombria angustiante
a casa com quartos salas e sonhos
a casa onde choramos rimos e amamos
a nossa casa de histórias segredos e mistérios
em casa respirei e atravessei os tempos
em casa senti as raízes e o apelo do passado

eu amei a casa todos os desejos da casa
e fundi-me nela com todas as minhas
angústias pesadelos e ambições. e agora
não consigo largá-la. que será de mim
longe daqui? onde conseguirei ouvir
os sorrisos frágeis da minha infância?
onde reencontrarei os braços abertos de
minha mãe e a sensatez de meu pai?

eu amei a casa toda a vida da casa
mas ela não passa por toda a minha vida
ela surgirá a olhar para mim pela janela
ela morrerá um bocadinho com o meu abandono
mas manterá a estabilidade serena para
aguardar sempre o meu eterno regresso.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

depois da minha passagem a casa
que abandonei recordará ainda
a melancolia das minhas palavras

segunda-feira, 7 de julho de 2008

útero

o silêncio intenso permite ouvir o bater
de todas as pálpebras enquanto que a
dor reduz todas as divisões. a natureza

obriga. e sinto-me a percorrer um trilho
já conhecido. a cabeça segue à frente
a rasgar corredores sinuosos. mas o corpo

não quer ir e as mãos agarram-se às
esquinas dos armários e aos órgãos das
mães que inspiram protecção. o regresso

nunca será possível. aquele que abandona
nunca consegue regressar. só lhe resta enfrentar
o peso do tempo e o sorriso da melancolia.

por isso os olhos piscam triunfalmente com
a força da luz e os pulmões abrem-se
para respirar com o toque das novas mãos.
a janela olha para o sol e o branco das
paredes continua a cegar. a dor da partida

amanhece com a certeza de cada retorno
e a luz líquida de todos os olhares
reflecte a meiga intimidade de cada útero

o primeiro momento em que senti o poder da
casa.

o marulho do ar

levantou-se ensonada e dirigiu-se à cozinha para pôr o café a aquecer. encostou-se ao fogão com um meio sorriso e deixou invadir-se por uma sensação de conforto, usualmente reprimido.
os filhos não tardaram a sentar-se à mesa. tudo o que a rodeava inspirava uma segurança obtida à custa de afazeres e rotinas obrigatórias e pré-definidas. a casa, paga todos os meses ao banco, revelava a sua paciência e o seu gosto. olhou em volta e sentiu o orgulho de um agricultor. tudo o que semeara dera fruto, os filhos, o marido, as cortinas, a cafeteira do café. as suas mãos plantavam e colhiam uma vida segura e estável que sempre desejara. sentia-se mais forte do que nunca, o seu corpo que dia a dia se tornava mais volumoso exprimia a ternura que punha em cada tarefa e a consciência do poder humano em construir a sua própria harmonia. criara uma vida de adulta. esquecera as aspirações juvenis, os desejos artificiais e os sonhos inalcançáveis. vivia para os outros com persistência, com alegria mas sem felicidade.
havia todavia um momento que era só seu. despachados os filhos para a escola e o marido para o trabalho, dirigia-se para a rua para fazer as compras diárias, deixando os pensamentos fluir através das mãos tingidas de vermelho da mulher que lhe vendia um quilo de morangos. repousava no seu interior com medo de descobrir um ponto menos claro, menos compreensível e mais ambicioso. mas logo a visão da farmácia trazia a lembrança do xarope do filho e a realidade arrependida tomava conta de tudo. o mundo era compreensível e certo. bastava não olhar muito em redor. bastava baixar os olhos e seguir o caminho traçado.
tinha consciência de que só o mar a compreendia. em momentos raros de lucidez recorria a ele, com toda a força e toda a garra de ser mulher. esperava pelo silêncio e pela solidão e confrontava a água com o seu mistério. só ela e o mar. à medida que entrava, sentia o conforto do frio e a liberdade da sua insignificância, acabavam-se as dependências e as obrigações e o corpo sobrepunha-se a todas as necessidades. realizava-se naqueles raros momentos. entrava com lentidão, sentia a água nos pés pequenos e moles, via os pêlos das coxas duras levantarem-se e encolhia a barriga pesada enquanto a água a cobria. mantinha-se sempre séria e encarava o ritual como essencial para a sua purificação. adequava-se à água gelada e deixava-se cobrir pela imensidão do mar. mergulhava, sentia-se leve e tentava saciar todos os sentidos. o cheiro a maresia inebriava-a e os goles de água salgada rejuvenesciam-na. tudo o que via e não via a pacificava. o marulho das ondas dotava-a de coragem e de sensações múltiplas que só serenavam com a invasão de todo o seu corpo. a água penetrava-a como um homem e depois de sucessivos mergulhos e de sucessivos goles esfomeados, a serenidade começava a voltar. pé ante pé, abandonava lentamente o seu amante. ainda sustinha o passo e permanecia parada alguns segundos, hesitava em prosseguir, mas o chamamento das raízes era mais forte. com os olhos avermelhados, os cabelos escuros, duros e espessos e a pele salgada, a mulher regressava à praia, pisava a areia e começava a vestir-se. nunca olhava para trás, nunca reflectia naquelas sensações experimentadas e nunca sorria. uma calma serenidade e uma firme determinação obrigavam-na a seguir o seu caminho. sabia que em casa os filhos a aguardavam para lanchar, que o marido precisava do seu carinho e que a mobília estava com pó. sabia que a vida prosseguia e aceitava-a com serena compreensão. nunca olhava para trás, nunca se despedia e nunca sorria. sabia que voltaria sempre e sabia que um dia voltaria para sempre.